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Nunca foi tão difícil ser pai (ou mãe)

Em 2018, ser pai ou mãe é um trabalho esgotante do que não tem o reconhecimento merecido junto dos avós que foram pais há décadas, junto dos eternos trintões sem filhos, junto dos média que destratam o tema como “lifestyle”.

 

(OPINIÃO DE HENRIQUE RAPOSO)

 

Bem sei que estou a falar em causa própria, bem sei que posso estar na arrogância do presente. Aliás, a grande objecção que se pode fazer à minha tese (ser pai nunca foi tão complicado) está logo na geração dos nossos avós. Os meus avós viveram um tempo sem vacinas, de fome, de pandemias. Na minha árvore genealógica, tenho familiares que morreram de doenças que hoje são consideradas relíquias. O trabalho braçal era hediondo, passava-se fome. Portanto, ser pai ou mãe para os meus avós não terá sido mais difícil? Não. Sobreviver era mais difícil, sem dúvida, mas, precisamente por causa da dureza da vida, não se esperava muito do papel de mãe ou pai. Criar um filho era colocá-lo fora do perímetro da alta mortalidade infantil. Quando dizia “criei dez”, a minha avó estava a dizer que tinha conseguido salvar dez. Perder um bebé ou criança era normal. Esta quota mínima mudou com o progresso das últimas décadas. A meu ver, mudou em demasia. A bitola da paternidade subiu para níveis insuportáveis. A perfeição, e só a perfeição, é uma exigência que a sociedade impõe aos pais de hoje. Têm de ser profissionais perfeitos, têm de ser maridos e mulheres perfeitos, na rua, na cama, no restaurante, nas viagens, e, além disso, também de ser pais perfeitos educando filhos perfeitos. Neste contexto, o divórcio só pode ser tão comum como a mortalidade infantil no passado.

 

O peso da paternidade começa neste culto da perfeição, que, por sua vez, está relacionada com a falácia do controlo absoluto da nossa vontade ou intelecto. Se a criança faz uma birra no supermercado, cai o carmo e a trindade, toda a gente olha com espanto ou censura, como se uma birra fosse o fim do mundo, como se aquilo que define o bom pai fosse a inexistência de birras (algo impossível) e não a forma como se lida com as birras inevitáveis. Como salienta Sara Rodi, esta obsessão pelo controlo total e racional lança uma exigência demoníaca sobre os pais. Assume-se que a criança é um produto, uma tabula rasa onde se pode colocar tudo o que quisermos; é como se a criança não fosse uma entidade sagrada e criada por algo superior ao nosso intelecto, é como se a criança fosse um carrinho telecomandado, e não um ser humano com carácter próprio. Portanto, se a criança está a fazer alguma coisa considerada errada, fala muito, fala pouco, más notas, notas demasiado boas, birras, drogas, aprende devagar, aprende demasiado depressa, fuma, não come, come muito, é muito gordo, é muito magro, come doces com açúcar (Vejam só!), come pão de trigo (Que escândalo!), bebe leite (Que coisa medieval!), se a criança faz alguma coisa errada, dizia eu, assume-se logo que o erro deriva dos pais. Pode não ser assim. A educação é fundamental, claro, mas não é infalível e há sempre uma margem de liberdade da criança que nunca desaparece. As crianças não são barro inerte ou folhas de excel à espera dos “inputs” certos; são seres humanos autónomos, com vida própria. Dêem uma folga aos pais.

 

Para ler o artigo na integra veja aqui.

Fonte: Renascença

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